quinta-feira, 14 de abril de 2016

Audiência robotizada e viralização da notícia

O que o jornalismo nas redes e o marketing têm em comum na atualidade? A capacidade de "viralizar" conteúdos e de construir audiência e até comentários mecanizados. Tudo para inflar o compartilhamento de informações e pautar a sociedade a partir de interesses ligados aos das grandes elites nacionais. Este foi um dos diagnósticos de um debate ocorrido na Casa da Ciência da UFRJ, no dia 12 de abril. Em tempos de discussões cada vez mais acaloradas e ódio destilado para todo lado, é sempre bom ouvir ou ler quem estuda o assunto. Vamos?


Amanhã, você acompanha aqui as análises (realizadas neste mesmo debate) sobre a TV brasileira.

A cada matéria atualizada, robôs ligados aos perfis dos veículos nas redes sociais disparam compartilhamentos, de forma a inflar a audiência. "Os robôs constroem tendências e, com isso, tendem também a pautar a sociedade", disse o professor Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo.


Professor Fábio Malini, da UFES. Foto: Silvana Sá
A novidade neste processo são os chamados "bots", robôs de redes sociais que passam a interagir com o público. Além da audiência artificial, eles geram interações igualmente artificiais. "Um exemplo clássico é quando você não gosta de uma matéria e faz um comentário de crítica e, pouco depois, começam a surgir comentários elogiando o texto, o assunto, a abordagem”.

O professor esclareceu que o uso desse tipo de ferramenta na comunicação não é contra a lei, mas suscita um debate em torno da "robotização da política". A consequência direta deste processo, segundo Malini observou em suas pesquisas, é o que ele chama de "robotização dos humanos". "Insistentes 'memes' políticos de apelo emocional fazem as pessoas replicarem os conteúdos quase que automaticamente". De acordo com Malini, o principal portal brasileiro a utilizar robôs para "viralizar" seus conteúdos é o G1, do Grupo Globo.

A narrativa

Esse novo fazer jornalístico cria, segundo o docente, uma nova forma de narrar acontecimentos. Isto, para Fábio Malini, é uma espécie de resposta às jornadas de junho de 2013. "Vídeos de dentro das manifestações aumentavam a audiência em torno dos acontecimentos e contestavam toda a narrativa montada pelos grandes veículos de comunicação. Houve uma verdadeira desmoralização da narrativa da imprensa".

Em 2014, o movimento "Não Vai Ter Copa" foi o primeiro fora da mídia tradicional a utilizar robôs no compartilhamento de conteúdos. "Houve a apropriação dessas manifestações na rede por um conjunto de atores políticos que vão desaguar no 'Vem Pra Rua'. Por outro lado, houve utilização de robôs também acusando aquele movimento de antipatriótico. Enfim, mais um erro da série de equívocos que o governo cometeu".

Guerra do convencimento


Professor Henrique Antoun, da UFRJ. Foto: Silvana Sá
Para Henrique Antoun, professor da ECO/UFRJ, a guerra das narrativas consiste em "convencer a todos de que algo, que não existe, realmente existe e deve ser encarado com muita seriedade". "E, para isto, não faltam revistas, TVs, jornais, campanhas publicitárias e, inclusive, pessoas que repetem lentamente e iterativamente a mesma frase para convencer as pessoas de que aquilo é muito importante". Como exemplo, ele citou as recorrentes vezes que âncoras dos telejornais, sobretudo da Rede Globo, repetiram a palavra "vândalo" e suas derivações, por ocasião das manifestações de junho de 2013.

No caso do processo do impeachment, a situação toma contornos mais graves, na visão de Antoun. "Estamos sendo assediados há mais de dois anos e ela (a imprensa) gera mesmo revolta, ódio, doenças psíquicas. É uma campanha planejada e que tem roteiro. No caso do Brasil, este é um processo facílimo: quatro donos da mídia. Todos os quatro empregados dos oligarcas que mandam neste país. São 71 mil pessoas que têm como seus empregados os donos da mídia e os políticos do Congresso".

Mentira e verdade. Democracia e paixões

Citando o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), o professor ilustrou o atual momento político, cercado de discussões acaloradas e impregnado de uma atmosfera de ódio que costuma permear discussões entre favoráveis e contrários ao impeachment. "A maior parte do tempo nós vivemos imersos em meias-verdades e em meias-mentiras. Como, no meio disso, eu posso falar para governar honestamente? Foucault vai mostrar que este processo não passa pelo convencimento racional, nem pela discussão. Só existe um modo de sair desse ciclo: é a explosão das paixões. Paixões que constituem, em última instância, um espaço aberto racional; que predispõem uma discussão, que permitem a democracia. A democracia aparece exatamente quando a mentira desaba e a verdade emerge pela luta das paixões".


O debate foi promovido pela Escola de Comunicação da UFRJ, com o apoio da Seção Sindical dos Docentes da UFRJ (Adufrj). Matéria publicada originalmente no site da Adufrj.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Não existe rombo da Previdência, defende economista

Nesta semana a economista e professora da UFRJ, Denise Gentil, deu uma bela e esclarecedora palestra na universidade sobre o sistema de financiamento da Seguridade Social e afirmou que a Previdência não tem um "rombo", como ouvimos tantas vezes os governos e a imprensa alardearem. Por que, então, seria necessária uma reforma? A docente, que é especialista em finanças públicas, respondeu a essa e a outras perguntas.

Desonerações fiscais (ou isenções) têm sido marca crescente dos últimos governos (tanto na esfera federal, quanto na estadual e municipal). No âmbito federal, são realizadas também sobre recursos que deveriam compor a receita da Previdência Social e o financiamento de todo o sistema de Seguridade Social — que inclui a Saúde, a Previdência e a Assistência Social. Em 2015, a União abriu mão de aproximadamente R$ 62,5 bilhões que seriam destinados à Previdência. 

Somadas todas as desonerações que compõem o orçamento da Seguridade, o montante chegou a R$ 157,64 bilhões e equivaleu a 2,75% do PIB no ano passado. É isso mesmo que você leu. Somente em 2015 deixaram de entrar nos cofres públicos mais de cento e cinquenta bilhões de reais! Os dados foram apresentados por Denise Gentil, economista e professora da UFRJ, especialista em finanças públicas. A palestra foi realizada no dia 5, organizada pelo Núcleo da UFRJ pela Auditoria Cidadã da Dívida Pública.


Acompanhe o Blog do Núcleo da UFRJ. Lá você encontra o vídeo com a palestra na íntegra e as tabelas apresentadas pela professora Denise.

O carro-chefe do ajuste fiscal, anunciado como necessário para superar a crise – tanto pelo governo de Dilma Rousseff, quanto pela oposição – é a Reforma da Previdência. A justificativa seria sanar um “rombo” estimado em R$ 85 bilhões, segundo os defensores da medida. Mas, de acordo com os números de Denise Gentil, isto não é verdade. A Seguridade Social é superavitária e não deficitária. Em 2015, os dados preliminares apontam que, considerando todos os gastos realizados pela Seguridade, o saldo foi positivo em R$ 16 bilhões. Em 2014, o valor consolidado foi de R$ 35 bilhões em receita líquida. 

Discursos contraditórios


Professora Denise Gentil. Foto: Silvana Sá
“Chamo atenção para a contradição entre o discurso que aponta déficit e as desonerações realizadas. Se eu tenho um rombo de R$ 85 bi, como abro mão de R$ 62,5 bi em um único ano?”, questionou. Outro aspecto levado em conta pela docente é a desvinculação de receitas da União (DRU), mecanismo que permite ao governo utilizar livremente 20% de tudo o que é arrecadado com os impostos. Há projeto para que o percentual passe a ser de 30%. “Não é contraditório desvincular receitas de um sistema deficitário?”. A docente informou, ainda, que a Previdência é capaz de obter mais ganhos que outros investimentos realizados pela União. “Estudos comprovam que, para cada R$ 1 aplicado na Previdência, retorna para os cofres públicos R$ 1,04. O sistema foi montado para dar certo”.

Outro ponto abordado pela docente é a incoerência de argumentos que apontam o envelhecimento da população e a necessidade de pensar o futuro. “Em 2028, estaremos no ápice da força de trabalho do Brasil. Nós vamos ter o maior número de jovens no mercado de trabalho. Em vez de o governo se perguntar o que faremos com todos esses jovens quando chegarem ao mercado de trabalho, nós estamos sendo assediados com uma reforma da Previdência que pode quebrar o sistema em 2040”.

Por que a reforma?

A razão para a Reforma da Previdência, então, não estaria relacionada a uma necessidade real, tampouco à insustentabilidade atribuída ao sistema previdenciário, mas ao lobby de bancos e empresas para a "financeirização" de todo o sistema de amparo social. "Valores expressivos deixaram de compor a receita da Seguridade, sem contrapartidas. Não houve manutenção dos postos de trabalho, nem realização de novos investimentos", disse a economista.

De acordo com a professora, em 2015 o governo federal renunciou a R$ 25 bilhões dos planos de saúde. “Receitas que poderiam compor o orçamento do SUS, mas estão servindo apenas para dar sustentação a essas empresas, aumentando, inclusive, suas margens de lucro”.

No campo da educação, as reformas estão em curso com a transferência de recursos públicos para a iniciativa privada, por meio, principalmente, do Prouni e do Fies. Este último ainda mais “perverso”, segundo Denise Gentil, porque “endivida os estudantes para o futuro”. “Justamente as políticas sociais, que são o carro-chefe dos governos petistas, são hoje financeirizadas”. O bolo maior, e restante, neste processo seria a Previdência Social que consome 21,76% do orçamento da União. Outros 45,11% deste orçamento já são destinados ao pagamento de juros e amortização da dívida pública.

* Matéria originalmente veiculada no site da Adufrj-SSind.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Doulas conseguem primeira vitória na Alerj

A mobilização em torno do direito das mulheres grávidas de serem acompanhadas por doulas nas maternidades conseguiu importante vitória. O plenário da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro votou, em primeira discussão, o Projeto de Lei 2195/2013 que obrigará as maternidades, sobretudo públicas, a aceitarem a presença dessas profissionais no pré-parto, parto e pós-parto, caso seja esta a vontade da mulher assistida. A votação, que indicou a constitucionalidade da matéria, ocorreu na tarde do dia 6 e foi acompanhada por muitas doulas, mães com bebês de colo e pais.


O PL recebeu 29 emendas que deverão ser apreciadas na Comissão de Constituição e Justiça e votadas no plenário. Ainda não há data para esta segunda votação, mas há indicação de que o trâmite não será demorado. Doulas deverão participar de Audiência Pública com a CCJ para ajudarem na apreciação das emendas. Após a aprovação final na Alerj, o texto seguirá para ser sancionado pelo Executivo.

Pareceres reforçam pleito

No mesmo dia, pouco antes do início da sessão, a Defensoria Pública do Estado emitiu nota técnica aos deputados sobre o PL. No documento, a Defensoria manifesta seu "apoio integral" ao projeto: “O regramento em questão é de grande importância para o aprimoramento do atendimento humanizado às gestantes fluminenses, especialmente a fim de se alcançar os índices de partos normais sugeridos pelo Ministério da Saúde e pela a Organização Mundial de Saúde ", diz trecho do documento. O relatório aponta, ainda, as diretrizes do Ministério da Saúde para a Humanização do Parto e a ministração de cursos pelo SUS. Veja a íntegra.

Outro apoio de peso veio da Associação Juízes para a Democracia. A entidade declarou publicamente, no dia 5, que a "presença da profissional Doula no momento do parto representa ação em prol da dignidade da pessoa humana, em especial a mulher gestante, humanizando o momento do nascimento". Diz, ainda, o documento, que a presença das profissionais ajudará o Brasil a sair da lista dos países com maior número de cesarianas desnecessárias do mundo. Leia.

Categoria profissional

Outro passo fundamental no reconhecimento dessas profissionais foi a inclusão da ocupação de doula como profissão com definição de piso salarial estadual. A emenda foi realizada no PL 1459/2016 (votado no mesmo dia), que prevê reajuste de 10,37% no piso salarial do estado. Assim, um conjunto de profissionais passarão receber no mínimo R$ 1.052,34 – como, por exemplo, empregadas domésticas e cuidadoras de idosos. O piso pode variar até R$ 2.684,99 (para profissionais de nível superior). Trabalhadores do estado estão divididos em seis faixas. Como a inclusão das doulas como categoria foi realizada por meio de emenda feita pela Comissão de Trabalho, elas ainda dependem da sanção do governador em exercício Francisco Dornelles. 

O Blog ouviu profissionais de atenção ao parto e mulheres que desejam um parto humanizado. Relembre.



terça-feira, 5 de abril de 2016

Janaína Paschoal vs. Dilma Rousseff: qual a questão?

O episódio mais recente envolvendo a jurista Janaína Paschoal – uma das autoras do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff –, em que ela aparece em vídeo discursando para um público na USP, fez-me lembrar da capa da revista Isto É da última semana. A referida publicação trouxe uma foto da presidente da República com expressões raivosas.

Houve reação imediata, sobretudo na internet, com o discurso de que a revista teria atribuído um tom
Capa da edição de Isto É do dia 1/4/2016
machista contra a mandatária máxima do país. A matéria principal intitula-se "Uma presidente fora de si". A chamada de capa: "As explosões nervosas da presidente". A legenda de uma das fotos traz a seguinte mensagem: "A presidente se entope de calmantes desde a eclosão da crise. Os medicamentos nem sempre surtem efeitos, atestam seus auxiliares". Outras expressões como "desvarios", "descontrole", "acessos", "tensão" e "desordem" são largamente utilizados na matéria central.

Apoiadores e não apoiadores do PT, mas que têm discurso de centro e de esquerda bradaram – a meu ver com razão – contra a revista. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva; o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; o ex-presidente Itamar Franco; o ex-presidente Fernando Collor e todos os demais ex-presidentes, eleitos ou não eleitos, jamais tiveram reportagens de capa sobre seu estado de humor, ataques de fúria ou uso de calmantes.

Tudo tem um porém

No entanto, o vídeo da Janaína Paschoal foi veiculado com os mesmos ares machistas que circundam
Imagem retirada do vídeo disponível no Youtube
a matéria da Isto É. Desta vez, apoiadores do governo replicam as imagens do discurso da jurista – que também demonstra uma expressão raivosa – com palavras e expressões como "descontrole", "fúria", "louca", "discurso ensandecido", "abalo emocional". Todos os elementos que fazem petistas ou contrários ao impeachment criticar a revista Isto É aparecem nos compartilhamentos, matérias e análises do vídeo – inclusive de veículos de comunicação identificados com a esquerda brasileira.

As críticas feitas a Dilma na revista Isto É e as críticas feitas a Janaína nas diversas formas relacionadas ao vídeo não me parecem mais uma parte da polarização em torno do impeachment. Parecem – estou convencida de que são – questão de gênero.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Alerj vota nesta quarta PL que obriga maternidades a aceitarem doulas

Fervilha no Rio de Janeiro a recente decisão da Maternidade Municipal Maria Amélia Buarque de Hollanda de proibir o acesso de doulas a partos realizados na instituição. A iniciativa é resultado da Resolução 266/2012 do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), que proíbe o acompanhamento dessas profissionais nas instituições de saúde em todo o estado. A Resolução estava suspensa por Ação Civil Pública movida pelo Conselho Regional de Enfermagem (Coren), mas voltou a valer em fevereiro deste ano, depois da decisão favorável em instância superior. 


Doulas são profissionais capacitadas para dar suporte emocional e físico para mulheres antes, durante e após o parto. Têm como função também compartilhar informações sobre todo o processo do nascimento e direitos da mulher.
Entenda mais sobre o papel da doula.
Veja também o Programa do Ministério da Saúde de Humanização do Parto.

A maternidade pública Maria Amélia é referência na atenção ao parto humanizado na cidade do Rio de Janeiro e tem sido procurada até mesmo por mulheres cobertas por planos de saúde e que não querem correr o risco de serem encaminhadas a uma cirurgia desnecessária na rede privada. Por isso está no centro da polêmica. Algumas gestantes têm conseguido o direito de serem acompanhadas por doulas na maternidade, mas somente por meio de liminar expedida pela justiça. 

Mobilização na Alerj

Para fazer valer os direitos das gestantes e das profissionais,
Atuação na Alerj dia 29/3. Foto de Vítor Soares
doulas e mulheres por elas acompanhadas, ou que desejam um dia o acesso a um parto humanizado, estiveram na Alerj na última semana em campanha pela aprovação do Projeto de Lei 2195/2013, que obriga as instituições de saúde a

permitirem a presença de doulas no pré-parto, parto e pós-parto, caso seja esse o desejo da mulher. Elas não contariam como acompanhantes, mas como parte da equipe de assistência ao parto. O PL está previsto para ser votado nesta quarta-feira, dia 6/4. São necessárias duas seções para sua aprovação antes de ser enviado para a sanção do governador.

A maioria dos parlamentares da assembleia foi procurada e se mostrou favorável ao pleito. O deputado estadual Flávio Serafini (PSOL) discursou no plenário da Alerj em apoio às profissionais. "A participação das doulas é fundamental para diminuir o número de intervenções no parto, além de ser direito da mulher ter uma profissional que lhe facilite o trabalho de parto". Ele informou que o seu mandato, em conjunto com o Instituto de Defensores de Direitos Humanos, está movendo uma Ação Civil Pública para que a Resolução 266/2012 do Cremerj seja derrubada.

Conselho se defende

Segundo a obstetra responsável pela Câmara Técnica de Ginecologia e Obstetrícia do Cremerj, Vera Fonseca, a resolução tem por objetivo "promover a melhor assistência obstétrica às mulheres no estado do Rio de Janeiro".  A médica afirma que cabe aos dirigentes das instituições de saúde "consultarem e acatarem" as resoluções do Conselho, mas esclareceu que o Cremerj não fez qualquer ameaça aos diretores de maternidades.

O Cremerj também se coloca contrário a partos domiciliares.  Outra resolução, a 265/2012, proíbe a presença de médicos obstetras em partos residenciais. De acordo com Vera Fonseca, o Cremerj entende "que o parto deve ocorrer numa maternidade, para que, caso haja alguma intercorrência, a paciente possa ser devidamente assistida". Questionada sobre as indicações da Organização Mundial da Saúde (OMS), de que a mulher gestante de baixo risco tenha respeitado o desejo de dar à luz no local que mais se sentir segura, e sobre a limitação do livre exercício da profissão de médicos obstetras, a médica disparou: "Só podemos dizer que o parto é de baixo risco após 24 horas do nascimento. Sendo assim, devemos promover que todo nascimento ocorra em uma maternidade, pois é o local mais seguro".

Há controvérsias

A doula Aline Amorim discorda do posicionamento do Cremerj. "Se eles estivessem realmente preocupados com a saúde e o bem estar de mãe e bebê, ao invés de interferir no trabalho de outros profissionais ligados à assistência ao parto, estariam criando resoluções para investigar e punir os médicos que realizam cesarianas por conveniência, contra a vontade da gestante – aumentando assim o risco de morbidade para mãe e bebê".

Ela comentou sobre as evidências apontadas em estudos de benefícios para a mãe e para o bebê assistidos por doulas. "A doula diminui a taxa de cesarianas, aumenta a satisfação da mulher com o parto, diminui as intervenções no parto. Na verdade, a doula só traz benefícios".

Aline considera, ainda, que o posicionamento do Cremerj
afronta os direitos da mulher. "Não só no parto, mas em todos os momentos da sua vida, a mulher deve ter a sua vontade respeitada. Se a mulher considera importante o acompanhamento profissional de uma doula ela não pode ser cerceada. Não faz sentido um conselho de classe tentar impedir o trabalho de um grupo de profissionais sem ouvir o que as mulheres querem".

Falta regulamentação

O obstetra e presidente da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Estado do Rio de Janeiro (SGORJ), Raphael Câmara, diz que a SGORJ concorda com a decisão do Conselho. "No contexto brasileiro nós apoiamos a decisão. Não existe regulamentação da profissão de doula. Ela é listada apenas como ocupação no Ministério do Trabalho e Emprego, mas sem nenhuma exigência de formação. Uma pessoa analfabeta pode se autointitular doula".

Segundo Câmara, a figura da doula "seria interessante", mas no Brasil as profissionais estariam "ideologicamente contra os médicos". "O maior problema é elas ficarem na cabeça da paciente dizendo que o que o médico está fazendo é errado, que é violência. Quem é mais capacitado para dizer se uma cirurgia é necessária ou não? O médico com anos de formação ou uma pessoa que não estudou para isso? Não há como trabalhar com esse clima", reclamou.

Outra questão abordada pelo médico é a atuação dessas profissionais no Sistema Único de Saúde, "onde não se conhece nem a paciente e nem a procedência da doula". "Ela chega se dizendo parte da equipe médica, mas no SUS ninguém pode receber por fora e elas são remuneradas pelas mulheres que elas acompanham. A atuação é totalmente irregular".

Doula não compete com obstetra

Aline Amorim defende que a atuação das doulas não substitui ou
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compete com o papel de nenhum outro profissional que trabalha na atenção ao parto. E explica: "A  doula está preocupada com o psicológico, com o emocional da gestante e com o que ela está recebendo de informação. A doula é importante, o obstetra é importante, a enfermeira obstetriz é importante, o pediatra é importante". 


Ela acredita que o principal ponto que motivou a resolução é justamente o acesso à informação: "Com informações essas gestantes se empoderam e começam a questionar os médicos sobre intervenções desnecessárias que receberam, porque elas começam a estudar. Elas também se informam e descobrem as indicações desnecessárias de cesarianas. Uma mulher informada e conhecedora dos seus direitos vai exigir muito mais e a doula é a fonte dessas informações".

Não só a OMS, mas também o Ministério da Saúde recomendam a atuação das doulas no acompanhamento de partos. Além dos benefícios à mãe e ao bebê, comprovados em estudos no mundo todo, partos naturais também reduzem custos, como aponta a doula voluntária da Maternidade Escola da UFRJ, Denise Duque Estrada. "Toda a medicação envolvida em um parto induzido ou em uma cesariana é muito cara. Anestesias, ocitocina, que é hormônio sintético, medicação para evitar hemorragias. São remédios caríssimos. O parto humanizado reduz absurdamente os custos e isso está comprovado cientificamente", afirmou.

Cesarianas no Brasil

Para Denise, o Conselho retira direitos da mulher, mas também reforça a ideia de que a cesariana é o caminho para a modernidade. "O Cremerj está tirando o alívio da dor, a segurança, a auto-estima naquele momento primal para a mulher. É um momento em que você está como fêmea, no contato mais íntimo com a sua natureza mais remota, diante de um corpo que foi preparado para isso. A mulher produz a ocitocina, produz a endorfina, num ambiente propício. E a doula encoraja e minimiza o medo da dor. Dor, todo ser humano é capaz de suportar e ela é diferente de sofrimento. A doula trabalha com exercícios específicos de respiração, estará ao lado da mulher o tempo todo, diferentemente do obstetra, que entra somente no momento da cesariana".

De acordo com a doula, o que estaria por trás da resolução do Cremerj seria a manutenção de um sistema de saúde que privilegia o dinheiro. "É um retrocesso. O que comanda é que a cesariana paga mais do que um parto natural. Enquanto se faz um parto natural de oito a 12 horas, e pode levar a 15 horas, 30 horas, se fariam dez, 15, 30 cesarianas. Tem uma questão econômica por trás disso. O profissional que vai assistir essa mulher no parto quer tecnologia, quer acelerar os processos. Não existe a lógica do respeito à mulher e ao seu momento, que é em grande parte involuntário. O parto é um produto do seu organismo, na mais suprema e pura natureza dele. Está provado que é um momento de recolhimento, de pouca luz, de poder andar, botar a roupa que quiser. E as maternidades não estão preparadas para isso".

Quem tem acesso ao parto humanizado?

As maternidades públicas em sua imensa maioria não estão preparadas e organizadas para atuarem com o parto humanizado. No Rio de Janeiro, somente a Maria Amélia tem esta tradição. Há, ainda, uma Casa de Parto, em Realengo, que atende o SUS. Denise Duque Estrada é categórica: "É uma questão de classe, infelizmente, sim. As mulheres que têm acesso ao parto humanizado são geralmente as que têm mais acesso à informação, têm maior escolaridade, podem pagar uma equipe particular".

Para tentar mudar essa realidade, o grupo de apoio a gestantes Ishtar começou a atuar na Maré em outubro de 2015. As gestantes da localidade são, em sua maioria, encaminhadas pelos pré-natais das Clínicas da Família da região justamente para a Maternidade Municipal Maria Amélia Buarque de Hollanda. Os encontros são mensais e acontecem sempre aos terceiros sábados, às 15h, no Museu da Maré, localizado na Av. Guilherme Maxwell, 26. O próximo encontro do grupo será realizado no dia 16 de abril.

Segundo uma de suas coordenadoras, a doula Andreza Prevot, o grupo é voltado a mulheres que vão parir pelo SUS e visa proporcionar informações e encorajá-las para o parto natural. "Somos um grupo de apoio ao parto e gestação. Fazemos rodas de conversa com o intuito de compartilhar informações sobre parto, sobretudo sobre a violência obstétrica, às mulheres da periferia. Acreditamos que a informação é uma arma na luta por nosso direitos, na luta pelo parto humanizado no SUS, na luta contra a violência obstétrica".

Corroborando com a noção de que o parto humanizado ainda não é para todas, e para ajudar na briga pelo acesso universal a este direito, está Gabriele Rodrigues, uma das frequentadoras do grupo na Maré. Moradora da comunidade do Chacrinha, em Jacarepaguá, ela tem 25 anos, estuda Biblioteconomia na UFRJ e está grávida de sua primeira filha: "O grupo me ajuda a tirar dúvidas, a saber me proteger contra violência obstétrica, com os primeiros cuidados com a minha bebê. Eu já queria um parto humanizado. A busca por espaços onde eu conseguiria um parto mais respeitoso e humanizado me deixou um pouco abalada, justamente por me dar conta de como seria difícil pra mim experimentar esse tipo de parto, já que os espaços são caros e de difícil acesso". Ela contou que no Ishtar Maré encontrou um lugar popular e encorajador.

Formação médica humanizada é fundamental

A tradição da formação médica brasileira, muito voltada para a técnica e pouco ou nada voltada para a humanização dos procedimentos, pode ser um entrave à humanização dos nascimentos. O pediatra Marcus Renato de Carvalho, professor da Faculdade de Medicina da UFRJ, vê na formação uma importante ferramenta de conscientização. Ele coordena o curso de especialização "Atenção Integral à Saúde Materno-Infantil", na Maternidade Escola da UFRJ. 

O curso visa trabalhar com conceitos baseados em evidências e em estudos recentes sobre gestação, parto e pós-parto. A humanização é um dos conceitos-chave do curso. O Blog foi convidado a conhecer esta experiência.

No curso, o público majoritariamente feminino (e apenas um homem) é formado por profissionais que já atuam no SUS. Clampeamento tardio de cordão, contato imediato da mãe com o bebê, amamentação nos primeiros momentos do nascimento, direitos da mulher estão entre os itens tidos como fundamentais para a saúde materno-infantil. Respeitar os momentos da mãe e da criança, as individualidades e o protagonismo da mulher também são peças-chave na formação dos profissionais que procuram o curso.

O professor Marcus Renato não concorda com a resolução do Cremerj. "O trabalho e atuação da doula afeta (e incomoda) os obstetras conservadores, que não respeitam a mulher e querem 'fazer' o parto. O Cremerj é bastante conservador, está desatualizado em relação às evidências científicas no campo perinatal e exerce um poder muito grande sobre nós médicos. Para mim, que sou pediatra, as doulas não atrapalham. Ao contrário, me ajudam, pois contribuem para a saúde do recém-nascido nas primeiras horas de vida e também em todo o processo do nascimento. Quanto mais suave for esse nascimento, melhor esse bebê se adaptará ao mundo e melhor será o vínculo com a mãe", diz o docente que coordena, ainda, o Portal Aleitamento.com.